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(Z1) 2020 - Águas do Algarve - Vídeo

David Rosa - Empresário e responsável pela ‘Odeceixe Surf School’

David Rosa - Empresário e responsável pela ‘Odeceixe Surf School’

Seis milhões de euros é o impacto anual do surf na economia do concelho de Aljezur

Perante estes resultados, “basta fazer as contas nas perdas que este primeiro semestre vai ter”, afirma, em entrevista ao ‘Correio de Lagos, David Rosa, de 43 anos, empresário de animação turística e responsável há 15 pela ‘Odeceixe Surf School’, para destacar o prejuízo provocado nesta zona do Algarve pelo período de quarentena em que o país se encontra devido ao novo coronavírus, Covid-19, tendo já obrigado ao adiamento do segundo curso de Treinadores de Surf Grau I a organizar por esta escola. Garante que Aljezur tem potencial para marcar posição no surf a nível mundial e apela à Região de Turismo do Algarve para apostar forte na promoção da modalidade com os operadores de animação turística.


Correio de Lagos - Como, onde e quando decorreu o primeiro curso de Treinador de Surf Grau I, organizado pela sua escola no concelho de Aljezur ?

David Rosa - O Curso de Treinadores de Surf Grau I em Aljezur foi um sucesso. Decorreu durante os meses de Março, Abril e Maio 2019, mais período de estágio de 6 a 12 meses. Esta iniciativa surgiu na sequência da necessidade, identificada por várias escolas de surf do Algarve, em especial as de Aljezur, de acompanhar este desenvolvimento desta modalidade na região, nomeadamente da sua componente turística com formação especializada. Este tipo de iniciativa passou por dar mais qualidade, segurança e prestígio ao ensino do surf na região. Depois de vários anos sem existirem cursos de treinadores de surf certificados em Aljezur, a Odeceixe Surf School, com a Universidade Lusófona e o apoio do Município de Aljezur, foi possível a sua realização. Em termos gerais, houve uma enorme vontade, disponibilidade e dedicação de quem frequentou o curso.


Correio de Lagos - E em que consistiu? Quantos dias e horas? E quais os custos?

David Rosa - O programa base é construído pelo IPDJ (uma parte geral) e pela FPS - Federação Portuguesa de Surf (uma parte específica), a partir daqui nós ajustamos o nosso plano de estudos acrescentando carga horária em algumas matérias ou mesmo adicionando novas unidades curriculares que entendemos serem pertinentes para a formação. Dependendo do grau de treinador, a carga horária varia ligeiramente, mas ronda as 100 horas de formação, excluindo o estágio final. Por norma, não realizamos aulas à distância,nem optamos por programas demasiado comprimidos, ou seja, muitas horas de formação por dia e em todos os dias da semana - não fazemos isso. No nosso entender, essas metodologias tiram qualidade à formação e desprezam vários dos seus conteúdos. Naturalmente que uma formação presencial e com interação direta com os formadores especialistas, na praia e na sala de aula, constitui uma enorme mais valia. Os nossos horários ocupam 3-4 dias por semana, nunca mais de 4 horas por dia. Nós seguimos os valores de referência definidos pela FPS, ronda os 800€ no Grau I os 1.000€ no Grau II.


Correio de Lagos - Quantos alunos participaram nesse curso, quais as idades e nacionalidades?

David Rosa - Neste Curso de Treinadores de Surf Grau I em Aljezur participaram 30 alunos (uma rapariga), na sua larga maioria portugueses de Aljezur e de toda a região do Algarve, com a excepção de 2 alunos de nacionalidade russa e brasileira. As idades rondaram entre os 22 e 45 anos de idade.


Correio de Lagos - E qual o número de formadores?

David Rosa - O curso contou com 15 formadores especializados.

“O surf é o maior motor turístico em Aljezur”

Correio de Lagos - O segundo curso de Treinador de Surf Grau I, da iniciativa do Odeceixe Surf School, deveria realizar-se nos meses de Março e Abril, mas em consequência da quarentena em Portugal imposta pelo estado de emergência devido ao novo coronavírus, Covid-19, acabou por ser adiado. Quantas inscrições já havia? Qual é o impacto provocado por esta situação no concelho de Aljezur? Quanto perde?

David Rosa - Sim, o 2º Curso de Treinadores de Surf Grau I em Aljezur acabou por ser adiado devido aos efeitos do impacto que o Coronavírus está a ter neste momento em Portugal. As inscrições estavam a decorrer a bom ritmo, como no primeiro curso. O Surf é o maior motor turístico em Aljezur. Segundo o Estudo do Produto Turístico Surf no Município de Aljezur, realizado pela Universidade do Algarve em 2017, apontava para 6 milhões de euros no impacto anual da economia no concelho de Aljezur, basta fazer as “contas” nas perdas que este primeiro semestre vai ter. De salientar que todo este impacto vai sentir-se nas escolas de surf, nos ‘surfcamps’, Surfshops, Alojamentos Locais, Hotéis, Apartamentos ou Aldeamentos Turísticos, ‘Hostels’, Restauração, Transportes, etc


Correio de Lagos - Quando pensa que o curso poderá ter lugar? Haverá condicionalismos nessa altura? O que irá ser feito em concreto e durante quanto tempo?

David Rosa - Neste momento de incertezas, gostaríamos de realizar o curso ainda este ano, sem data definida. O curso irá manter o seu formato de excelência no ensino ao Surf, em que se espera um elevado número de alunos na sua participação, tendo em conta a Universidade Lusófona descentralizar o curso para o Algarve, nomeadamente para Aljezur que é bastante conhecido pelas suas praias e boas ondas para a prática do surf, bem como a falta de instrutores certificados nas escolas de surf neste concelho.


Correio de Lagos - O que irá permitir a certificação do curso através da Universidade Lusófona, que colabora com a iniciativa?

David Rosa - O curso dá qualificação de treinador de desporto, neste caso na modalidade de surf, através de uma cédula profissional para poder trabalhar no país inteiro e nos países que tiverem protocolos com Portugal neste âmbito. Para além disso, os treinadores de surf formados pela universidade acabam por beneficiar de um carimbo de qualidade próprio da instituição e que diferencia pela positiva os profissionais da educação física e desporto que estão no terreno.

“Todas as praias do concelho de Aljezur são boas para a iniciação da prática do surf, nomeadamente a de Odeceixe devido ser constante a permanência de “bancos” de areia que torna uma praia segura para a iniciação do surf.”

Correio de Lagos - Como funciona a Odeceixe Surf School, qual a actividade? E quais as condições da Praia da Odeceixe para a prática do surf?

David Rosa - A Odeceixe Surf School funciona durante todo o ano. Esta escola de surf está licenciada para operar em todas as praias do concelho de Aljezur e não só. A praia de Odeceixe é onde está situada a sua base. No entanto, dependendo das condições das ondas, por vezes as aulas de surf são realizadas nas praias de Amoreira, Monte Clérigo, Arrifana ou Vale Figueiras. Todas as praias do concelho de Aljezur são boas para a iniciação da prática do surf, nomeadamente a de Odeceixe devido ser constante a permanência de “bancos” de areia que torna uma praia segura para a iniciação do surf. São realizadas experiências de surf, cursos de surf de 3 a 5 dias, organizamos actividades de tempos livres (ATLs), férias desportivas dos municípios e surf adaptado.


Correio de Lagos - Quantos surfistas utilizam anualmente a Praia de Odeceixe? E qual é a melhor altura?

David Rosa - Não se consegue contabilizar, mas entre alunos das escolas de surf e free-surfers podem ser milhares aqueles que nos visitam durante todo o ano. De referir que todas as praias do concelho de Aljezur são boas para a prática e aprendizagem do surf durante todo o ano, derivado à constante ondulação existente.


Correio de Lagos - Quais são as melhores e como são as ondas? Que alturas atingem?

David Rosa - Dependendo do tamanho de ondulação, direção dos ventos, períodos de vaga e marés, as praias de Amado, Bordeira, Vale Figueiras, Arrifana, Monte Clérigo, Amoreira e Odeceixe são todas boas para a prática do surf, em que a ondulação pode atingir 2 /3 metros.

“Existem muitas estruturas ilegais ditas escolas de surf, ‘surf guides’, etc. que “gozam” da falta de legislação em que as autoridades dificuldades em fazer cumprir”

Correio de Lagos - Que problemas enfrenta a actividade e a sua escola, em particular?

David Rosa - Os problemas que esta actividade enfrenta de momento, é o fecho das praias para a prática deste desporto/actividade devido ao Covid-19. Apesar de haver um regulamento para a actividade do surf na Capitania do Porto de Lagos (pioneiro em Portugal, em que muitas as capitanias estão a adotar para a regulamentação do surf nas suas áreas), existem muitas estruturas “ilegais” ditas escolas de surf, ‘surf guides’, etc. que “gozam” da falta de legislação em que as autoridades têm dificuldades em fazer cumprir, não esquecendo a falta de recursos para fiscalização de todas as identidades. No entanto, existem também outros problemas que as escolas enfrentam, nomeadamente com a falta de “espaço” para a realização das aulas de surf nos areais das praias devido ao ‘boom’ que o surf teve na região. De referir que há 15 anos existiam cerca de 12 escolas de surf na área de jurisdição da Capitania de Lagos (Aljezur , Vila do Bispo e Lagos) e neste momento são perto de 40 escolas de surf.

“Já existe um projecto para uma ‘nova imagem’ do surf com base em valores sócio económicos sustentáveis, bem como na defesa dos valores ambientais para ser implementada nas praias do concelho de Aljezur.”

Correio de Lagos - É possível ao concelho de Aljezur e costa vicentina competirem com a Nazaré ao nível do surf?

David Rosa - Portugal é referência a nível mundial pela qualidade, quantidade e diferentes tipos de ondas em diversas praias que o nosso país oferece. Nazaré deu talvez a maior projecção mundial pela grandeza de ondas que se verifica na altura do inverno. Peniche, com a organização da etapa do campeonato do mundo de surf, também mostra ser dos melhores locais do mundo para a prática deste desporto. Não esquecendo que a Ericeira em 2011 também tornou-se a 2ª Reserva Mundial de Surf, única na Europa. Todas as escolas de surf no país beneficiam de forma direta. Aljezur tem, também, potencial para marcar posição no Surf a nível mundial. Para isso, é preciso ter uma “visão” e definir uma estratégia com base nos valores naturais que as praias de Aljezur podem oferecer, não esquecendo a participação da comunidade do surf local que está a crescer. Neste momento, já existe projecto para uma “nova imagem” do Surf com base em valores sócio-económicos sustentáveis, bem como na defesa dos valores ambientais para ser implementada nas praias do concelho de Aljezur. Esperamos que com a lei de transferências de competências na área do domínio público marítimo em 2021 em Aljezur, seja o momento certo para a aplicação no terreno deste tão desejado projecto.

“Tem de haver muita vontade, muita persistência e perseverança e muita tolerância à frustação. Esta última é obrigatória” - entre os factores necessários para ser um surfista de topo"

Correio de Lagos - Qual o perfil de um surfista? E quanto tempo demora a atingir um bom nível?

David Rosa - Penso que não existe um perfil ideal para ser surfista de topo. Acredito que uma boa carga genética ao nível das estruturas músculo -esqueléticas e também das capacidades coordenativas faça uma boa diferença, mas não basta. Tem de haver muita vontade, muita persistência e perseverança e muita tolerância à frustração. Esta última é obrigatória. Eu costumo dizer que para ser surfista de topo são necessários três factores: 1º. - Treinar quase diariamente e sempre com muita vontade; 2º - Viajar bastante, o mais possível, sair da nossa praia. Nas viagens, desenvolvemos diferentes competências em diferentes tipos de ondas, diferentes ambientes na água, diferentes líderes. Este intercâmbio cultural na água é fundamental, é obrigatório, estas aprendizagens são insubstituíveis; 3º. - Competir bastante, participar em muitos campeonatos durante o ano inteiro. Nos campeonatos, a evolução é única. Quem não compete nunca evolui uma determinada parte da sua técnica, debaixo de pressão, que só naquele ambiente conseguimos desenvolver. Associado a tudo isto e cada vez mais válido hoje em dia, temos a orientação do treinador, porque é mais experiente, interpreta tudo de forma mais madura e mais lúcida, porque perceciona mais à frente e porque gere também a esfera cognitiva e emocional do atleta. O perfil ideal é tudo isto.

Uma prancha de surf pode custar entre 220 e 600 euros e um fato de 100 a 400

Correio de Lagos - Quanto custa uma prancha? E o fato e outro equipamento? Em termos gerais, quanto terá de despender, em média, por ano, um surfista?

David Rosa - São várias as especificidades inerentes à produção de uma prancha de surf. Existem tamanhos para todos os gostos e para todas as carteiras. O peso, a altura, o tipo de onda que o surfista que surfar e o nível de experiência são fatores fundamentais na escolha da prancha surf. O preço pode variar entre os 220 euros a 600 euros dependendo dos materiais usados. O fato de surf tem várias espessuras, podem ser 3/2mm, 4/3mm, 5/4/3mm, os preços que podem encontrar no mercado andam entre os 100/400 euros. Dependendo do nível de surf, o surfista iniciado deve frequentar uma escola certificada e credenciada e fazer um curso que ronda os 250 euros (+-25 euros por aula). Caso queira evoluir o seu nível de surf, deve ter acompanhamento de um treinador de surf de nível intermédio/avançado. No caso de um surfista avançado, o seu gasto irá ficar mais elevado nas suas deslocações e viagens a diversos países.

“Já há treinadores de surf portugueses responsáveis por selecções nacionais de outros países, como a Bélgica, Rússia, Dinamarca e Polónia”

Correio de Lagos - Como encara o surf como modalidade olímpica? É possível a Portugal competir com outras potências mundiais?

David Rosa - Representa mais oportunidades para os treinadores de surf do mundo inteiro e Portugal não é excepção. Aliás, para quem anda menos atento, nós já estamos a exportar treinadores de surf para o exterior, designadamente alguns casos de treinadores portugueses responsáveis por algumas selecções nacionais de países estrangeiros, como a Bélgica, Rússia, Dinamarca e Polónia, e também casos de treinadores que em determinados momentos da época desportiva treinam surfistas profissionais estrangeiros. Claro que Portugal pode competir com qualquer potência mundial, mas não é fácil chegar ao nível de potências que treinam e competem desde os anos 70 e culturalmente estão muito à frente de Portugal, como a Austrália, os Estados Unidos, o Hawaii e mesmo o Brasil. Mas o surf está a dar uma grande volta e a Europa está cada vez mais a fazer parte da elite do surf mundial. Basta acompanhar o circuito mundial de qualificação e vemos vários surfistas europeus a integrar de forma consistente o top 20 desses rankings. “Com esta febre à volta do surf nas praias do concelho de Aljezur, comecei a ver que a comunidade sentiu um “sobressalto” nas utilização das praias, em especial na zona de banhos, isto porque é uma área de conflito entre “banhistas” e escolas de surf. Cumpramse as regras e haja bom senso! Outro alerta que gostaria de deixar é a má imagem que o surf tem em relação ao caravanismo e campismo selvagem, isto tem de ser dissociado.”


Correio de Lagos - Que alertas pretende lançar?

David Rosa - Sou do tempo em que o Surf era bem vindo a Aljezur. Com esta febre à volta do surf nas praias do concelho de Aljezur, comecei a ver que a comunidade sentiu um “sobressalto” na utilização das praias, em especial na zona de banhos, isto porque é uma área de conflito entre “banhistas” e escolas de surf. Cumpram-se as regras e haja bom senso! Outro alerta que gostava de salientar é a má imagem que o surf tem em relação ao caravanismo e campismo selvagem, isto tem que ser dissociado. A Região de Turismo do Algarve tem de apostar forte na promoção do Surf com os operadores de Animação Turística (escolas de surf) no Algarve, isto porque neste momento é o maior veículo de captação de turistas para a região e do país ! (dito pelos responsáveis do Turismo de Portugal). Para aqueles que querem ter o primeiro contacto com esta modalidade, devem procurar uma escola de surf certificada através da Federação Portuguesa de Surf, que cumpra com todos os requisitos legais como: Licença do Turismo de Portugal, Licença da Capitania da sua área de jurisdição, Seguros de RC/AC, monitores credenciados. As escolas devem fornecer o material. Verifique o estado das pranchas e dos fatos. Como são partilhados por várias pessoas, convém que cumpram mínimos de higiene. O corredor de surf no areal da praia deve estar identificado com bandeiras. O treinador e os alunos devem estar identificados, por exemplo, com camisolas coloridas da escola (as chamadas “licras”).

"A Associação das Escolas de Surf de Portugal (AESP) enviou, no dia 18/04/2020, ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, ao Presidente da Assembleia da República, ao Ministro da Defesa, ao Ministro do Mar e ao secretário de Estado do Turismo, além de outras entidades, uma carta a propor, entre outras medidas no âmbito da prevenção face à Covid-19, a alteração do rácio instrutor/aluno. Assim, em vez de um instrutor para oito praticantes, como até agora, o rácio deverá passar, defendem os responsáveis das escolas de surf, para "um instrutor para quatro praticantes, garantindo a distância de dois metros entre os elementos do grupo", afirmou ao 'Correio de Lagos' David Rosa, da 'Odeceixe Surf School'."

José Manuel Oliveira

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