Acesso Reservado

Entre na sua conta.

(Z1) 2020 - Águas do Algarve - Vídeo

O Conde de Vale de Reis e a defesa da Sra. da Luz (Lagos)

O Conde de Vale de Reis e a defesa da Sra. da Luz (Lagos)

Artigo da Revista Nova Costa de Oiro em https://www.novacostadeoiro.com/

Uma das mais importantes, conhecidas e procuradas estâncias balneares do Concelho de Lagos é a Praia da Luz.

No passado, o areal e a pequena baía, limitados pela Ponta das Ferrarias e Rocha Negra (a Leste) e a Ponta da Calheta (a Oeste) foi defendido por uma das mais bem estruturadas fortificações costeiras da antiga Praça de Guerra de Lagos: o Forte de Nossa Senhora da Luz, cujas origens recuam à 2.ª metade do Século XVII.

A importância deste ponto não passou despercebida a um dos Governadores do Reino do Algarve, Martim Afonso de Melo que, em 1644, alertou o Rei D. João IV para o perigo de eventuais desembarques nesta zona, tendo por esse motivo defendido a construção de uma fortificação na Senhora da Luz.

Porém, só alguns anos depois foi concretizada essa obra militar. O responsável pela construção do forte foi o 2.º Conde de Vale de Reis, D. Nuno de Mendonça (1612-1692). Este nobre pertenceu à casa do Príncipe D. Teodósio. Foi também o Alcaide-Mor de Loulé, de Faro e de Albufeira.

Entre outras funções e cargos, desempenhou os de Presidente do Senado da Câmara de Lisboa, do Conselho Ultramarino e foi Conselheiro de Estado dos Reis D. Afonso VI e D. Pedro II.

Foi, ainda, Vedor da Fazenda e fez parte da casa da Princesa D. Isabel Luísa Josefa (filha do primeiro casamento de D. Pedro II). D. Nuno de Mendonça casou com D. Luísa de Castro e Moura, filha do senhor de Póvoa e Meadas e neta do 14.º senhor de Azambuja. O 2.º Conde de Vale de Reis exerceu as funções de Governador do Reino do Algarve em 3 ocasiões: em 1651-1653, em 1656-1660 e, finalmente, nos finais dessa mesma Década de 60 do Século XVII.

Em Lagos, além de ter sido Provedor da Misericórdia nos anos de 1668 e 1669, mandou construir a escadaria do Palácio que serviu de residência aos governadores, ordenou a reparação da casa da Misericórdia, bem como a da Igreja de São Pedro dos Marítimos e foi, igualmente, o responsável pela construção de várias obras defensivas na zona costeira.

Segundo o Pároco da Luz, João Fernandes Viana, em 1758, a Sul e perto da Igreja paroquial encontrava-se uma antiga torre de vigilância costeira, onde se tocava a rebate com um sino. A construção estava relacionada com os desembarques que os piratas e corsários norte-africanos costumavam fazer nestas costas, utilizando lanchas. Segundo este religioso, por duas vezes os Mouros arrombaram as portas da igreja, a golpes de machado, e levaram a imagem da padroeira. O próprio Rei terá pago o resgate da imagem.

De facto, se observarmos bem a paisagem em torno da Igreja da Luz e a tentarmos imaginar sem as actuais construções habitacionais e turísticas, constataremos facilmente que o templo se encontrava bem perto do mar e bastante exposto aos seus perigos.

Os ataques de norte-africanos nesta zona foram muito inquietantes e frequentes. Foi por essa razão que D. Nuno de Mendonça, 2.º Conde de Vale de Reis mandou construir o Forte de Nossa Senhora da Luz, no ano de 1670.

As respostas às usuais perguntas que podemos colocar sobre a construção deste edifício militar com interesse histórico e patrimonial encontramo-las na Pedra de Armas, que ainda hoje subsiste sobre a entrada principal do Restaurante Fortaleza da Luz.

Através da sua leitura somos informados que a construção desta fortificação ocorreu durante a Regência do Príncipe D. Pedro (irmão de D. Afonso VI) e durante o exercício do cargo de Governador e Capitão General do Reino do Algarve por parte do Conde de Vale de Reis, D. Nuno de Mendonça, o qual “...mandou fazer este Forte com prezidio e artilharia dedicado à Sacratisima Virgem Nossa Senhora da Lus...para defeca de sua santa caza e de seus freguezes que no mesmo lugar ha muitos anos edificada lhes serve de parochia para que com tão segura protecçao fiquem livres dos assaltos dos Mouros que por aquele sitio fizerao por muitas vezes grandes hostilidades cativando muitas pesoas...”. Além destes motivos, o texto narra outros, não menos importantes.

Refere a “...atrevida barbaridade...” que constituiu o roubo da “...imagem da mesma Sra...”. Justifica novamente a construção desta obra defensiva “...para que de todo ficasse defendido seu sacro templo estando de todo dezemparado...”. O resto do discurso epigráfico está carregado de todo um simbolismo religioso e metafórico interessante.

O Forte é apresentado como uma estrela para os navegantes, uma “...invencível sentinela aos moradores da terra...”, terminando com um apelo referente à “...Mai de Deos...”, no sentido de “...para daqui por diante lhe virem humildemente trebutar venerações”. Por fim, temos a data de construção: 1670. Importa aqui destacar um aspecto importante, bem patente no texto da Pedra de Armas desta fortificação e que é revelador de um traço da personalidade de quem a mandou edificar.

O grande estudioso e compilador da História Lacobrigense que foi Manuel João Paulo Rocha, escrevendo acerca deste governador realçou as diversas obras de piedade que ele protagonizou na sua passagem por Lagos e pelo Reino do Algarve. Ora, a construção do Forte de Nossa Senhora da Luz foi, seguramente, uma dessas obras.

Na referida pedra, como vimos, encontramos toda uma linguagem de grande fervor religioso e de intensa preocupação com a freguesia constituída pela comunidade luzense, que evidenciam, de facto, o carácter piedoso deste governador: a construção da fortificação para defesa da “santa casa” e dos fregueses da Senhora da Luz, para os proteger das investidas dos inimigos vindos do mar (que capturavam pessoas locais), para servir de ponto de referência aos navegantes, terminando com um fervoroso apelo para que aqui se viesse prestar culto à padroeira.

A aldeia, os seus habitantes e a sua igreja (com origens que recuam pelo menos ao Século XVI) passaram assim a ficar mais protegidas ao abrigo das muralhas da sua fortaleza.

Também, as embarcações que passavam pela zona, ou que aqui laboravam nas suas pescarias passaram a dispor de mais um local de abrigo.

Será que foi suficiente? É o que analisaremos no nosso próximo texto, onde aprofundaremos mais alguns aspetos sobre esta notável fortificação costeira.

Artur Vieira de Jesus,

Licenciado em História

Bibliografia:

- CALLIXTO, Carlos Pereira, “História das Fortificações Marítimas da Praça de Guerra de Lagos”, Lagos, Câmara Municipal de Lagos, 1992. - JESUS, Artur Vieira de, “Vila do Bispo – Lugar de Encontros”, Volume I, Vila do Bispo, Câmara Municipal de Vila do Bispo, 2013. - “Nobreza de Portugal e do Brasil”, direcção, coordenação e compilação de Afonso Eduardo Martins Zuquete, Volume III, Lisboa, Edições Zairol, Lda., 2000. - ROCHA, Manuel João Paulo, “Monografia de Lagos”, Faro, Algarve em Foco Editora, 1991.

  • PARTILHAR   

Outros Artigos